Matheus Leitão

Imagem colorida Amelinha Teles - Metrópoles
Imagem colorida Amelinha Teles - Metrópoles · Imagem: Divulgação/ Alesp/ Rodrigo Romeo

Torturada pela ditadura, Amelinha Teles transformou a dor em luta pela democracia, pelos direitos humanos e pela memória

A coragem de Amelinha e dor da despedida
A coragem de Amelinha e dor da despedida · Imagem: Source: www.metropoles.com

Matheus Leitão

16/09/2026 12:29

Divulgação/ Alesp/ Rodrigo Romeo

O Brasil se despede nesta quarta-feira (16/9) de Maria Amélia de Almeida Teles, a Amelinha, uma das mulheres mais importantes da luta pela democracia e pelos direitos humanos no país. Seu corpo está sendo velado na reitoria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), instituição que lhe concedeu, em 2023, o título de doutora honoris causa. Amelinha morreu na terça-feira, aos 81 anos, no Dia Internacional da Democracia.

Ao pesquisar a prisão e a tortura de meus pais para escrever Em Nome dos Pais, encontrei Amelinha no mesmo encadeamento trágico da repressão. Documentos da ditadura mostram que a delação de Foedes dos Santos, dirigente do PCdoB no Espírito Santo, levou meus pais e mais uma dezena de pessoas à prisão e ao suplício. Como num efeito dominó, provocou também as prisões de Carlos Nicolau Danielli, César Augusto Teles, Amelinha e sua irmã, Crimeia.

Amelinha e César foram presos em dezembro de 1972, depois de levarem Danielli às proximidades de um encontro clandestino. Ela carregava na bolsa o recibo da compra de uma máquina de lavar. Amelinha me contou não saber ao certo, mas acreditar que nele constava o endereço onde Crimeia, gestante, dormiria naquela noite. Grávida de sete meses, a irmã foi presa no dia seguinte.

Amelinha foi levada ao DOI-Codi de São Paulo, então comandado por Carlos Alberto Brilhante Ustra. Ali, foi submetida a torturas físicas e violência sexual e testemunhou o assassinato de Danielli. Seus filhos, Janaína, de 5 anos, e Edson, de 4, foram sequestrados pelos agentes da ditadura e levados ao centro de repressão, onde viram os pais torturados. Ao encontrar a mãe coberta de hematomas, Janaína perguntou: “Mamãe, por que você está azul?”

Amelinha transformou a violência que sofreu em luta permanente. Participou do Movimento Feminino pela Anistia, criou o jornal Brasil Mulher, fundou a União de Mulheres de São Paulo e atuou em defesa da igualdade de direitos entre homens e mulheres na Constituição de 1988. Também integrou a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos e a Comissão da Verdade do Estado de São Paulo Rubens Paiva.

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Em 2005, a família Teles ajuizou uma ação civil contra Ustra. Três anos depois, ele se tornou o primeiro agente da ditadura reconhecido como torturador pela Justiça brasileira. A decisão foi mantida pelo Superior Tribunal de Justiça em 2014.

A morte de Amelinha provoca uma tristeza profunda. O país perde uma mulher que enfrentou a tortura, o sequestro dos filhos e a tentativa de apagamento promovida pela ditadura sem renunciar à memória, à verdade e à justiça. A democracia brasileira deve muito à sua coragem.