Enquanto cerca de 2.500 policiais fortemente armados, soldados e atiradores de elite entravam por um labirinto de ruas estreitas, tiroteios intensos podiam ser ouvidos por todos os lados. A cena atingiu o clímax quando uma bomba direcionada às forças de segurança foi vista caindo do céu, de acordo com imagens da operação realizada em outubro passado.O vídeo poderia ter saído de uma zona de guerra, mas aconteceu nas encostas do Rio de Janeiro, um destino preferido de milhões de turistas.A chamada “Operação Contenção”, nas favelas do Complexo da Penha e do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, colocou as forças de segurança contra as redes de uma das maiores organizações criminosas do Brasil, o CV (Comando Vermelho). O episódio deixou dezenas de mortos, e a bomba em queda destacou um fenômeno preocupante: o uso crescente de drones pelo crime organizado.Um relatório da organização não governamental ACLED (Armed Conflict Location & Event Data Project / Projeto de Dados de Localização e Eventos de Conflitos Armados) destaca que a tecnologia de drones está se expandindo rapidamente dentro e através das fronteiras na América Latina. O relatório registrou “cerca de 670 eventos com drones armados desde 2018, mas mais de 72% desses eventos ocorreram entre 1º de janeiro de 2025 e 21 de agosto de 2026”.No México, uma onda recente de ataques envolvendo drones equipados com explosivos colocou as autoridades em alerta. Tanto a Marinha quanto a Secretaria de Defesa do México confirmaram à CNN Internacional um aumento nas apreensões de drones ao longo do último ano. Na Colômbia, o presidente recém-empossado enfrenta o desafio crescente imposto por grupos armados, que também utilizam drones em seus ataques. Sua evolução e avanço estão se acelerando enquanto as forças de segurança tentam acompanhar.Os primeiros usos de drones para fins criminosos na América Latina foram registrados em prisões, principalmente no Brasil. “Drones substituíram os pombos que antes eram usados para entregar mensagens e pequenos pacotes, oferecendo maiores vantagens e fácil acesso a mercadorias no mercado clandestino, incluindo armas, pacotes de drogas, alimentos, bebidas alcoólicas, celulares e todo tipo de contrabando que encontrou uma rota aérea para dentro dos presídios”, afirma o InSight Crime, um site especializado em investigações sobre o crime organizado. Casos de drones tentando contrabandear mercadorias proibidas para presídios têm sido registrados desde 2014.No entanto, ao longo da última década, eles se tornaram uma ferramenta padrão no submundo do crime. Paddy Ginn, especialista sênior da GI-TOC (Global Initiative Against Transnational Organized Crime / Iniciativa Global Contra o Crime Organizado Transnacional), observa que o uso atual recai em cinco categorias: vigilância, logística, ataque, sinalização e coordenação.“Estamos vendo uma transição clara do uso experimental de drones por grupos criminosos para um uso operacional estruturado e repetível”, diz Ginn. Assim como outros especialistas consultados pela CNN Internacional, ele afirma que essa evolução é mais evidente – e mais preocupante – no México, na Colômbia e no Brasil, enquanto a Guatemala registra “um uso emergente ligado a conflitos fronteiriços entre cartéis, e a Venezuela apresenta primeiros indicadores por meio de apreensões e casos de posse”.“No México, os cartéis vêm usando drones para ataques há pelo menos cinco ou seis anos”, afirma Ginn. “Grupos criminosos agora usam drones para monitorar patrulhas policiais, lançar artefatos explosivos improvisados sobre rivais ou forças de segurança e apoiar operações de contrabando de migrantes ao longo da fronteira com os EUA (Estados Unidos).”Ginn destaca que o uso de drones para essas finalidades cresceu não apenas em frequência, mas também em sofisticação. “Poucas inovações se espalharam por conflitos e pelo crime organizado tão rapidamente quanto os drones.”David Mora, analista sênior especializado em México na ONG (Organização Não Governamental) Crisis Group, compartilha dessa visão. “Certamente houve um aumento no México. Desde pequenos drones usados para vigilância, o que é altamente eficaz para grupos criminosos, até drones maiores e mais sofisticados, com maior capacidade de carga, aos quais explosivos são fixados.”O que mais preocupa os especialistas é a facilidade com que esses aparelhos podem ser adquiridos: eles podem ser comprados praticamente pela internet. “Eles adaptam drones comerciais, como os usados para entrega de encomendas, para carregar explosivos. Alguns possuem capacidades de carga extremamente altas. E, embora não tenham tanto alcance, isso também está mudando”, explica Mora.Outro uso desses drones é para o tráfico, supostamente por meio da fronteira entre México e EUA. De fato, o governo Trump tem investido em tecnologia para combater esse problema, embora autoridades mexicanas tenham minimizado a questão. O sinal mais recente do avanço norte-americano contra drones é o anúncio de que suas forças usaram um sistema a laser pela primeira vez na última semana para abater três drones supostamente ligados a cartéis de drogas mexicanos que sobrevoavam perto da fronteira entre o Texas e o México.Contudo, Mora enfatiza que a maior parte dos relatos sobre drones vem de dentro do próprio México, particularmente do estado de Sinaloa, em meio às disputas internas do poderoso cartel que atua na região. “Também há muitos relatos em Michoacán, onde, assim como em Sinaloa, eles são mais utilizados para controle territorial e confrontos entre grupos.” Em Tamaulipas, onde também há uma certa concentração de atividades com drones, o uso está mais provavelmente relacionado à vigilância por ser um estado fronteiriço, diz Mora.O InSight Crime também identifica os estados mexicanos de Chihuahua e Guanajuato como áreas onde as operações com drones aumentaram. Destaca ainda que grupos criminosos mexicanos “buscaram a expertise de ex-militares colombianos para aprimorar e profissionalizar o processo de fixação de explosivos em drones.”Além de compartilhar essa experiência com cartéis mexicanos, o uso de drones na Colômbia também se tornou comum entre grupos dissidentes das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia).A ACLED observa que a Colômbia se tornou o epicentro da guerra de drones. “Aqui, o uso de drones armados está se espalhando com maior rapidez: 97 dos 182 municípios onde a ACLED registra eventos envolvendo drones armados em toda a região latino-americana ficam na Colômbia, concentrados principalmente em Cauca, mas com uma propagação evidente para Norte de Santander, Antioquia, Chocó, Nariño e Bolívar.” A ONG explica que a maioria desses episódios ocorre em cidades rurais “localizadas perto de enclaves de cultivo de coca ou corredores de narcotráfico.”O InSight Crime ressalta que, na região de Catatumbo, na Colômbia, unidades de guerrilha do ELN (Exército de Libertação Nacional) “estão equipando drones com tecnologia de sensores de imagem térmica para aprimorar capacidades de vigilância 24 horas por dia”. O relatório acrescenta que “ataques coordenados em ‘enxame’ e drones sobrevoando comunidades servem como armas de intimidação psicológica para controlar territórios e minar a confiança pública nas forças de segurança do Estado.”Como já mencionado, o Brasil foi pioneiro no uso de drones para contrabando em prisões, mas, mais recentemente, facções também passaram a utilizá-los como instrumentos para lançar explosivos e monitorar movimentações policiais.Os especialistas consultados pela CNN Internacional concordam que, até agora, não houve registros na região do uso de drones kamikaze pelo crime organizado, dispositivos que vêm sendo relatados, por exemplo, na linha de frente dos combates entre Ucrânia e Rússia.Em muitos dos países latino-americanos que têm registrado intenso uso de drones por grupos criminosos, governos estão investindo no combate a esses equipamentos.No Brasil, por exemplo, a Polícia Civil do Rio lançou a COANT (Coordenadoria de Operações com Aeronaves Não Tripuladas), “incorporando drones a operações policiais e de inteligência para mapeamento em tempo real e monitoramento operacional”, relata o InSight Crime.No México, antes do recente emprego de lasers para derrubar drones, o embaixador norte-americano Ronald D. Johnson havia anunciado um acordo entre os dois países com o objetivo de fortalecer “capacidades estratégicas e operacionais por meio de inovação em defesa e novas tecnologias”.Johnson afirmou que isso permitiria ao México “acessar o mercado digital do Exército dos Estados Unidos para adquirir sistemas aéreos não tripulados e sistemas contra aeronaves não tripuladas a custos competitivos”, para fortalecer sua capacidade de “combater os cartéis e enfrentar nossos desafios de segurança compartilhados”.Na última sexta-feira (4), Ricardo Trevilla Trejo, Secretário de Defesa Nacional do México, fez referência à tecnologia contra drones empregada pelas forças de segurança durante uma coletiva de imprensa. “Implantamos 165 sistemas antidrone ao longo da fronteira norte e estamos alcançando bons resultados com eles”, disse ele.Na Colômbia, o presidente Abelardo de la Espriella acertou com os EUA o empréstimo de três drones MQ-9A Reaper para monitorar corredores de narcotráfico e realizar eventuais ataques de precisão contra alvos de alto valor estratégico sob as devidas autorizações, de acordo com uma fonte do Ministério da Defesa colombiano que confirmou a informação à CNN Internacional.Paddy Ginn, da GI-TOC, observa que algumas agências estão se adaptando rapidamente, “particularmente onde o uso de drones já se tornou operacionalmente expressivo”. Ele afirma que as forças da lei brasileiras “demonstraram sucesso em desmantelar redes de drones em presídios, e as forças de segurança colombianas reconhecem cada vez mais os drones como parte do ambiente de ameaça em regiões afetadas por conflitos”.Ele também ressalta que o México aumentou “as apreensões e a divulgação pública de artefatos explosivos improvisados lançados por drones, indicando uma conscientização crescente sobre o problema”.“No entanto, o preparo geral segue desigual. A inovação criminosa frequentemente avança mais rápido do que a adaptação regulatória, sobretudo quando as tecnologias são baratas e amplamente disponíveis”, ressalta Ginn.O especialista frisa que a questão central reside no fato de que “os drones diminuem a distância entre os métodos criminosos e militares”. Ele aponta para a guerra na Ucrânia, em que forças russas e ucranianas mobilizaram drones para atingir alvos.“O conflito na Ucrânia demonstrou quão eficazes sistemas de drones relativamente simples podem ser quando combinados com rápida adaptação e redes distribuídas de aprendizagem”, analisa. “Grupos criminosos estão atentos a isso. Eles não estão necessariamente importando armamentos militares, mas estão aprendendo com as táticas e técnicas demonstradas na Ucrânia.”Especialistas como Ginn apontam que a proliferação do uso de drones pela região representa uma ameaça concreta para o continente, na medida em que grupos criminosos se inspiram em conflitos externos. “Tanto forças russas quanto ucranianas aperfeiçoaram o uso de drones kamikaze e drones explosivos guiados por IA (Inteligência Artificial), estabelecendo um precedente para a inovação criminosa na região (latino-americana)”, aponta um relatório do InSight Crime.Ginn comparou o drone ao que outrora representou o fuzil Kalashnikov, o AK (Avtomat Kalashnikova), considerando como ambos se converteram em “armas” de uso comum, baixo custo e alto poder letal. “No entanto, se o sistema internacional de controle de armas teve dificuldades para frear a proliferação de armas do tipo AK, parece ainda menos equipado para enfrentar a ascensão da tecnologia de drones”, escreve Ginn em um artigo divulgado no site da GI-TOC.Agravando a dificuldade de controlar a aquisição de drones por grupos do crime organizado, está o fato de que algumas forças de segurança passaram a adotá-los como armamentos. Em ambos os casos, civis têm muito a perder.O exemplo mais nítido é o Haiti, onde, segundo relatório da HRW (Human Rights Watch), “ao menos 1.243 pessoas morreram em ataques com drones em 141 operações (realizadas por forças de segurança) entre 1º de março de 2025 e 21 de janeiro de 2026, incluindo pelo menos 43 adultos que não eram membros de facções criminosas e 17 crianças”.O país, duramente castigado por gangues e por uma grave crise humanitária, passa anos tentando conter a criminalidade sem grande sucesso. E, ao contrário de outros países da região, as gangues no território atuam infiltradas em meio à população civil, inclusive na capital, Porto Príncipe.“O Haiti demonstra tanto o potencial quanto os riscos da mobilização de drones policiais em ambientes altamente disputados”, avalia Ginn, da GI-TOC, para quem impõe um desafio colossal às forças de segurança o fato de que bandos criminosos consigam “se adaptar ao se misturarem mais profundamente dentro de áreas civis, aumentando a complexidade das decisões de ataque”.Os depoimentos reunidos pela HRW são desoladores. Um deles partiu de uma mulher cuja filha de 6 anos foi morta em um dos ataques das forças de segurança contra facções. Ela conta que havia saído rapidamente para comprar mantimentos enquanto a filha brincava por perto: “Quando cheguei perto do vendedor, ouvi uma explosão. Era o caos, pessoas estavam mutiladas, havia barulho por todos os lados... Estava cheio de crianças. Havia muitas pessoas mortas”.Um relatório publicado em 2025 pelo CSIS (Center for Strategic and International Studies / Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais) afirma que os ataques com drones “recaem de maneira desproporcional sobre civis”. “O resultado é um clima de medo e confusão entre as comunidades locais e provavelmente exerceu um papel nada insignificante no deslocamento forçado de mais de 54.000 pessoas de suas casas em Catatumbo”, na Colômbia, exemplifica o CSIS.Mora, do Crisis Group, também salienta que os drones operam como armas de intimidação contra a população. “Há regiões do México onde qualquer zumbido deixa os moradores em estado de alerta”, conclui o analista do Crisis Group.“Não existe uma solução única”, resume Ginn. “Respostas eficazes exigem uma conjugação de regulação, detecção, interceptação, inteligência e cooperação em todo o sistema.”“O ponto central é que os drones não devem ser tratados como uma questão estritamente técnica. Fazem parte de um processo mais abrangente de inovação do crime, e as respostas precisam refletir esse cenário amplo”, finaliza Ginn.Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. Siga o canal do R7, o portal de notícias da RECORD, no WhatsApp

Drones estão se tornando a arma de preferência do crime organizado na América Latina; governos enfrentam dificuldades para acompanhar o ritmo
Drones estão se tornando a arma de preferência do crime organizado na América Latina; governos enfrentam dificuldades para acompanhar o ritmo · Imagem: Source: noticias.r7.com
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Pessoa em uniforme camuflado se protege atrás de um carro enquanto aponta uma arma. Ao fundo, fogo intenso no meio da rua gera fumaça espessa que encobre parte da cena. O ambiente urbano mostra prédios e fios elétricos cruzando o espaço.
Pessoa em uniforme camuflado se protege atrás de um carro enquanto aponta uma arma. Ao fundo, fogo intenso no meio da rua gera fumaça espessa que encobre parte da cena. O ambiente urbano mostra prédios e fios elétricos cruzando o espaço. · Imagem: Drones representam uma ameaça à segurança, com grupos usando táticas internacionais Reprodução/Record News
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