As lideranças afirmam que o governo do Reino Unido deve se preparar para uma mudança constitucional.

14 set 2026 - 12h50

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- Por: David Deans - Repórter de Política no País de Gales; Cemlyn Davies - Correspondente de Política no País de Gales

Resumo

Em um movimento inédito, os líderes de Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales assinaram um acordo conjunto reivindicando o direito à autodeterminação e declarando o fim da hegemonia de Westminster. Enquanto escoceses e norte-irlandeses pressionam por novos referendos de independência, o premiê galês adota postura mais cautelosa, sem fixar prazos. O governo britânico e partidos de oposição criticaram a iniciativa, reforçando o compromisso com a manutenção da unidade do Reino Unido.

John Swinney, Rhun ap Iorwerth, Mary Lou McDonald e Michelle O'Neill se encontraram no País de Gales nesta segunda-feira

Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Os primeiros-ministros do País de Gales, da Escócia e da Irlanda do Norte declararam que "o tempo de Westminster está chegando ao fim" e que o governo do Reino Unido deve "se preparar" para uma mudança constitucional.

As três nações formam, junto com a Inglaterra, o Reino Unido, cuja sede do parlamento fica no Palácio de Westminster, em Londres.

Os líderes nacionalistas do Plaid Cymru (Partido do País de Gales), do Sinn Féin (partido da Irlanda do Norte) e do SNP (Partido Nacional Escocês) — que desejam a saída de seus países do Reino Unido — assinaram um acordo nesta segunda-feira (14/9) que afirma que nenhum governo do Reino Unido tem o direito de "bloquear a democracia".
Mas enquanto o escocês John Swinney e a norte-irlandesa Michelle O'Neill defenderam a realização de referendos, o galês Rhun ap Iorwerth se recusou a apresentar um calendário para um referendo em seu país.
O Partido Trabalhista e o Partido Reformista, ambos do Reino Unido, acusaram o Plaid Cymru de querer desmembrar o reino.
A expectativa é que um acordo sobre a "futura colaboração em áreas de interesse comum" seja assinado ainda nesta segunda entre o País de Gales e a Escócia.
Pela primeira vez desde o início da descentralização de poderes, no fim da década de 1990, o País de Gales, a Escócia e a Irlanda do Norte têm primeiros-ministros que desejam deixar o Reino Unido.
"Para quem nos observa em todas estas ilhas, para quem nos observa em todo o mundo, não poderia haver sinal mais claro de que o tempo de Westminster está chegando ao fim", dizia o memorando de entendimento desta segunda.
"Nenhum governo de Westminster tem o direito de bloquear a democracia ou minar o princípio de que o nosso povo decidirá o seu próprio futuro."
"Reconhecemos que nossos partidos têm posições constitucionais diferentes e que cada nação determinará seu próprio futuro à sua maneira e no seu próprio tempo."
Um porta-voz do Plaid Cymru, do País de Gales, declarou antes da reunião que a "mudança no cenário político destas ilhas" justificava plenamente a "cooperação política prática" em áreas como energia, economia e colaboração com a Europa.
Ele acrescentou que isso também incluía "as questões políticas e constitucionais mais amplas que nossas nações enfrentam e o direito à autodeterminação".
O líder Ap Iorwerth afirmou que as eleições galesas de maio — que resultaram em uma vitória histórica do nacionalista Plaid Cymru — representaram "um ponto de virada para o País de Gales" e que havia "um reconhecimento crescente de que o modelo de Westminster não funciona mais".
O Plaid Cymru descartou um referendo sobre a independência antes das próximas eleições para o Senedd (Parlamento galês), em 2030.
O líder do escocês SNP, Swinney, disse que esta reunião de segunda foi um "momento crucial na jornada constitucional do Reino Unido".
Ele disse que as eleições de maio passado em cada nação criaram uma situação em que os primeiros-ministros acreditam que "seus países devem decidir seu próprio futuro".
"Esse princípio de autodeterminação é um direito alienável", disse ele.
Swinney descreveu Andy Burnham como o "último primeiro-ministro do Reino Unido".
"Porque o povo da Escócia, se tiver a oportunidade de escolher a independência em um referendo, fará essa escolha."
Mary Lou McDonald, presidente do Sinn Féin, descreveu a reunião como "histórica", dizendo: "Temos o direito ao referendo. Temos o direito de decidir o nosso futuro."
"Não aceitaremos nem toleraremos que nenhum primeiro-ministro nos diga que esse direito está fora de questão."
A primeira-ministra da Irlanda do Norte, O'Neill, disse que as três nações eram "distintamente diferentes" e tinham suas próprias prioridades.
Mas ela afirmou também que "a causa comum aqui é que Westminster não serve e nunca servirá bem ao nosso povo".
Os líderes assinaram um acordo dizendo que cada nação determinará seu próprio futuro "à sua maneira e no seu próprio tempo"
Foto: Getty Images / BBC News Brasil
Questionado pela BBC sobre o significado do memorando de entendimento para o País de Gales, e se isso implicava pedir a Westminster que não bloqueasse um referendo sobre a independência galesa, ap Iorwerth disse que "cabe ao povo do País de Gales decidir o seu próprio futuro".
Mas, perguntado novamente, ele disse: "Sabe, eu prefiro deixar a questão do cronograma nas mãos do povo do País de Gales."
Ele acrescentou: "O cronograma será definido pelo povo do País de Gales quando eles estiverem convencidos. Meu trabalho é convencer."
O governo galês não tem competência para realizar tal referendo, mas ap Iorwerth disse em entrevista coletiva que gostaria de ver essa atribuição transferida para o país.
Na semana passada, Andy Burnham pareceu indicar que um segundo referendo poderia ser realizado na Escócia se houvesse um claro apoio público à votação. O último foi em 2014.
O primeiro-ministro do Reino Unido comparou a situação às condições para um referendo sobre a fronteira na Irlanda do Norte.
Ele explicou que o Acordo da Sexta-Feira Santa — assinado em 1998 e que pôs fim a um período de 30 anos de conflito na Irlanda do Norte — deixou claro que um referendo seria "considerado pelo secretário da Irlanda do Norte quando houver um consenso claro no país, quando a opinião pública tiver mudado a ponto de a questão ter que ser considerada".
"Eu diria que a situação é exatamente a mesma na Escócia", acrescentou.
A aparente mudança de tom foi bem recebida por Swinney, antes de Burnham esclarecer que outro referendo escocês continuava "fora de questão".
O referendo sobre a independência da Escócia de 2014 resultou na permanência do país no Reino Unido por uma margem de 55% a 45%.
O primeiro-ministro do Reino Unido, Andy Burnham, se reunirá com os líderes das regiões descentralizadas no mês que vem
Foto: EPA / BBC News Brasil
A dinâmica no País de Gales é diferente da dinâmica na Escócia.
Ap Iorwerth, que foi nomeado o primeiro primeiro-ministro não trabalhista do País de Gales após as eleições para o Senedd em maio, havia descartado a possibilidade de pressionar por um referendo sobre a independência galesa durante o primeiro mandato de seu partido no governo.
Seu governo pretende criar uma comissão nacional para "lançar as bases" de futuros planos para a independência do País de Gales.
Entretanto, os ministros galeses estão buscando a transferência de poderes adicionais para o País de Gales, incluindo sobre policiamento e jovens infratores — uma ideia à qual Burnham disse estar "aberto".
Ap Iorwerth disse que Andy Burnham tinha "muito a aprender" sobre "como a descentralização para uma nação é bastante diferente da descentralização para uma região ou uma cidade da Inglaterra".
"Quero ter um relacionamento positivo com ele, e acredito que ele também queira ter um relacionamento positivo comigo", disse.
Na Irlanda do Norte, o primeiro-ministro e o vice-primeiro-ministro têm poderes e responsabilidades idênticos, sendo Emma Little-Pengelly, do Partido Unionista Democrático (DUP), a vice-primeira-ministra.
Little-Pengelly criticou O'Neill por ter comparecido às conversas desta segunda.
O governo do Reino Unido declarou: "O primeiro-ministro está empenhado em promover mudanças em todas as quatro nações do Reino Unido e acredita firmemente na união."
Os ministros galeses há muito tempo pedem a reforma da fórmula de financiamento Barnett, alegando que ela prejudica o País de Gales. O mecanismo financeiro é utilizado pelo Tesouro do Reino Unido para calcular automaticamente a distribuição de gastos públicos entre Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte.
No entanto, argumenta-se que a Escócia se beneficia bastante dessa fórmula.
Antes de se tornar primeiro-ministro, Burnham defendeu a mudança, mas em sua recente visita ao País de Gales, minimizou a possibilidade de reforma.
Os líderes das regiões descentralizadas se reunirão com o primeiro-ministro no mês que vem.
O líder trabalhista no País de Gales, Ken Skates, disse: "O Plaid Cymru não ofereceu nada ao povo desde as eleições."
"É evidente que querem usar o poder para desmembrar a Grã-Bretanha, enfraquecer o País de Gales e passar o tempo obcecados em conceder mais poderes aos seus políticos."
O líder conservador galês no Parlamento galês, Darren Millar, disse: "Em vez de ficar obcecado com a independência, o primeiro-ministro deveria se concentrar em lidar com a crise que assola o NHS (Serviço Nacional de Saúde) galês e com a queda dos padrões nas escolas galesas."
Dan Thomas, líder galês do Partido Reformista, disse: "O primeiro-ministro não consegue controlar as listas de espera do NHS (Serviço Nacional de Saúde) ou o nosso sistema educacional, mas aparentemente tem tempo para nos dizer o que todos já sabemos: que ele quer a dissolução do Reino Unido."
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