Se você já olhou para uma atleta de fisiculturismo e pensou “como ela conseguiu ficar desse tamanho?”, provavelmente também já se perguntou se existe algum segredo por trás daquele corpo. E, quando o assunto é músculo, a testosterona costuma aparecer rapidamente como uma das principais suspeitas.O Olympia, maior palco do fisiculturismo mundial, que terminou neste fim de semana em Las Vegas, nos Estados Unidos, voltou a colocar essa questão diante dos nossos olhos. O Brasil teve oito pódios na competição, incluindo dois títulos: Eduarda Bezerra foi bicampeã da Wellness e Natalia Abraham Coelho conquistou o título da Women’s Physique. Zama Benta ficou com o segundo lugar na mesma categoria e Leyvina Barros terminou em terceiro na Women’s Bodybuilding.São corpos que impressionam pelo volume, pela definição e pela quantidade de massa muscular. Mas existe uma diferença importante entre olhar para uma atleta de alto rendimento e pensar que, para qualquer mulher ganhar músculo, é preciso ter testosterona alta.Não é bem assim.A testosterona participa, sim, da construção muscular tanto em homens quanto em mulheres. A grande diferença é que o organismo feminino produz naturalmente muito menos desse hormônio. Ainda assim, mulheres conseguem desenvolver massa muscular de forma expressiva com treinamento de força.“A testosterona é um hormônio que ajuda, sim, a construir músculo, tanto em homens quanto em mulheres”, explica o nutrólogo especialista em medicina estética regenerativa, Matheus Azevedo.Mas ele faz uma ressalva importante: “A mulher não precisa de maneira alguma de níveis de testosterona iguais aos do homem para hipertrofiar.”Talvez essa seja a parte mais interessante para quem treina e não pretende subir em um palco de fisiculturismo: não existe um único hormônio responsável pela hipertrofia.O músculo precisa receber um estímulo adequado, ser desafiado progressivamente e contar com uma alimentação que dê suporte ao processo.“O que constrói o músculo, primeiro, é o estímulo do treino, segundo, a progressão de carga adequada e, por terceiro, uma alimentação muito bem estruturada e muito bem direcionada”, afirma o nutrólogo.E não adianta olhar apenas para o número que aparece em um exame de sangue: “Dentro dos níveis normais, para a mulher, a testosterona tem um papel muito mais coadjuvante do que um papel de protagonista nesse processo”, explica Matheus.Estudos mostram que os níveis de testosterona no sangue não explicam sozinhos por que uma mulher ganha mais ou menos massa muscular: “O que vai importar é um treino bem estruturado, uma dieta muito bem estruturada, mas principalmente a sensibilidade do músculo àquele hormônio”, completa o médico.Ou seja: duas mulheres podem ter características hormonais semelhantes e, ainda assim, responder de maneira diferente ao treinamento.Quando falamos em músculos, a testosterona costuma roubar toda a atenção. Só que o estrogênio também participa da relação entre o corpo feminino e o exercício.“Ele tem uma ação antioxidante que reduz o dano muscular depois do treino e pode ajudar diretamente nessa recuperação pós-treino”, explica Azevedo.É também por isso que algumas mulheres percebem mudanças na recuperação e nas dores musculares ao longo do ciclo menstrual. Mas isso não significa que seja necessário transformar cada fase do ciclo em uma estratégia diferente de treino: “Na prática, isso não obriga que a mulher tenha que mudar o treino de acordo com a fase do ciclo menstrual. O mais importante é ela manter a constância no treino”, explica o especialista.Aqui existe uma diferença importante.Os homens, em geral, começam com uma quantidade maior de massa muscular e têm níveis de testosterona muito superiores aos das mulheres. Por isso, quando olhamos para números absolutos, eles tendem a atingir maior volume muscular.Mas isso não quer dizer que o corpo feminino responda mal ao treinamento: “As mulheres respondem de uma forma muito parecida ao treino de força”, afirma o especialista.Então, aquela ideia de que uma mulher precisa reproduzir o ambiente hormonal masculino para conseguir músculos simplesmente não corresponde ao funcionamento da hipertrofia feminina.É aqui que a experiência de quem vive o fisiculturismo ajuda a colocar tudo em perspectiva.A fisioterapeuta, professora universitária e atleta de fisiculturismo Bruna Massaroto conhece bem a diferença entre simplesmente treinar e construir um físico voltado para competição.Ela conta que, ao longo de quase cinco anos no fisiculturismo, percebeu mudanças importantes no próprio corpo: mais densidade muscular, volume e detalhamento dos grupos musculares.Mas, antes de qualquer coisa, houve uma palavra que se repetiu ao longo do processo: constância.“Uma das partes mais importantes é a constância: manter ali um treinamento, manter a dieta, manter tudo programado com seu treinador ou a pessoa que vai te orientar”, conta Bruna.E talvez seja justamente isso que muitas vezes não aparece quando vemos uma atleta pronta no palco. A imagem final é impressionante, mas por trás dela existem anos de treinamento, alimentação, descanso e repetição.Existe ainda uma armadilha comum entre mulheres que querem acelerar os resultados: achar que quanto mais treino, melhor.Mais exercícios. Mais séries. Mais tempo na academia. Mais esforço.“Muitas vezes as mulheres acabam treinando demais”, afirma Bruna. “A gente tem a ciência a nosso favor. A gente tem uma delimitação ali para o grupo muscular que ajuda muito a gente a saber o volume, a intensidade, a demanda para aqueles grupos que a gente precisa.”Para Bruna, o excesso pode acabar atrapalhando justamente aquilo que a mulher mais deseja: continuar treinando e evoluindo: “Esse volume demais, fora do comum, acaba trazendo malefício. Pode vir uma lesão, uma alteração, coisas que vão gerar problemas para essa mulher ao longo do tempo e acabar até interrompendo uma preparação.”Então, fica uma regra que vale para quem quer competir e também para quem só quer ganhar massa muscular na academia: treinar melhor é mais importante do que simplesmente treinar mais.É fácil olhar para uma atleta do Olympia e pensar apenas no treinamento. Mas o treino é só uma parte da história.Sono, alimentação e recuperação também fazem parte do processo de construção muscular.A musculatura precisa de tempo para se recuperar do estímulo recebido durante o exercício. Por isso, passar horas na academia não compensa noites mal dormidas, alimentação inadequada ou falta de descanso.No fisiculturismo, essa rotina fica ainda mais evidente, porque o objetivo é levar o desenvolvimento muscular a um nível extremamente específico.Mas a lógica também vale para quem treina por saúde, estética ou qualidade de vida.Essa é outra dúvida que aparece com frequência, principalmente quando mulheres começam a acompanhar conteúdos sobre fisiculturismo nas redes sociais.A imagem de atletas extremamente musculosas pode criar a impressão de que um corpo assim só é possível com algum tipo de intervenção.Bruna considera esse um dos principais mitos entre as mulheres que buscam hipertrofia: “Hipertrofia é multifatorial”, afirma. “Necessariamente você não precisa usar nada para chegar nesse shape específico. É só constância, tempo, dedicação por um tempo.”Ela também chama atenção para a pressa por resultados.No mundo das redes sociais, em que a transformação corporal costuma aparecer resumida em fotos de “antes e depois”, é fácil esquecer que músculos não são construídos em algumas semanas.já É claro que uma atleta que compete no Olympia está em um contexto completamente diferente de quem faz musculação algumas vezes por semana. São objetivos, rotinas, preparação e níveis de desenvolvimento muscular distintos.Mas existe um ponto em comum: o músculo responde ao estímulo do treinamento.A testosterona participa desse processo, mas não conta a história inteira.Para a mulher que quer ganhar massa muscular, os pilares continuam sendo um treino bem estruturado, progressão adequada, alimentação compatível com o objetivo, sono, recuperação e constância.E talvez essa seja a principal lição que podemos tirar quando vemos aquelas mulheres gigantes no palco: não é preciso comparar o próprio corpo com o de uma fisiculturista para entender como a hipertrofia funciona.O corpo feminino tem, sim, particularidades hormonais, anatômicas e biomecânicas. E ele também tem uma enorme capacidade de ficar mais forte e ganhar massa muscular.Não existe um único hormônio responsável por isso. Existe um processo e ele leva tempo.✅Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. 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