Depois de três décadas diante das câmeras, a atriz revisita sua relação com a própria imagem, fala sobre representatividade e celebra a liberdade de poder mudar

'Não posso ser só um cabelo': Taís Araujo reflete sobre identidade, beleza e a decisão de mudar o visual aos 47 — Foto: Hudson Rennan (FSag)

Em O Olho Mais Azul, romance de estreia de Toni Morrison, uma menina reza, com todas as forças, para ter um par de olhos azuis. Ela os imagina como a senha para um mundo que a receberia como ela é – uma prova de que passaria a ser bonita, querida, digna de atenção. O livro é de 1970, mas descreve algo atual: como um padrão único de beleza nos consome pela ausência, pelo rosto que nunca está na vitrine, na boneca, na revista.

Estrela da capa desta edição, Taís Araujo aprendeu cedo a ocupar o lugar contrário a esse vazio. Criada no subúrbio do Rio de Janeiro, filha de pais que repetiam que se deve aproveitar todas as oportunidades, ela chegou à vida pública sem manual de instruções e foi construindo uma imagem que hoje parece ter existido sempre. Aos 47 anos, diante das câmeras há três décadas, é dessas presenças que o Brasil entende de um jeito estável: bela, querida, inspiradora, poderosa, quase perene – e, ao mesmo tempo, absolutamente pertencente ao seu tempo. “Foi algo feito de forma muito orgânica”, diz.

Taís Araujo reflete sobre identidade, beleza e a decisão de mudar o visual aos 47 — Foto: Hudson Rennan (FSag)

Não é pouca coisa manter isso por tanto tempo, e ela sabe. Conversei com Taís em um dia simbólico dessa trajetória: em 17 de setembro de 2026 completaram-se 30 anos da estreia de Xica da Silva, da extinta Rede Manchete, que a tornou a terceira atriz negra a protagonizar uma telenovela brasileira – antes vieram Yolanda Braga, em A cor da sua pele (1965, TV Tupi) e Ruth de Souza, em A Cabana do Pai Tomás (1969, Globo). O papel a catapultou profissionalmente aos 17 anos.

“Foi um rápido disparador para uma carreira que poderia ter dado muito errado”, afirma.

Mas deu certo. E ela sente a distância entre o estouro inicial e a mulher de agora quando o assunto é a relação com a própria imagem.

Taís Araujo reflete sobre identidade, beleza e a decisão de mudar o visual aos 47 — Foto: Hudson Rennan (FSag)

“Depois que a gente se descobriu, é a liberdade total. Inclusive para voltar a alisar, se quiser”

Foi contra o peso dessa imagem — sólida a ponto de parecer imutável – que veio a vontade de mudar radicalmente o visual. “Não acredito que eu sou só um cabelo. Não posso ser só um cabelo”, pensou antes de tomar a decisão. O corte, curtíssimo e na textura natural, crespa, era um plano para quando ela chegasse aos 50, idade em que imaginava que enfim estaria segura para fazê-lo. Antecipou em dois anos e meio. “Ih, eu acho que é agora. Não é mais com 50, não. Cortei tudo.”

Na infância, a relação de Taís com o próprio cabelo foi tão dura quanto é para tantas meninas negras de sua geração: estava sempre com os fios presos e começou a alisá-los aos 11 anos. “A imposição de alisar é a violência de não nos permitir ser quem somos”, diz. “Porque ser você era considerado ser feio e não pertencer.”

Foi só após um corte químico, já adulta, que reencontrou a textura real. “Falei: meu Deus, é lindo. E isso aconteceu com milhares de mulheres negras no Brasil.” Faz questão de associar sua descoberta pessoal com um movimento coletivo, brasileiro, de reencontro com quem se é e com quem veio antes.

“Depois que a gente se descobriu, é a liberdade total. Inclusive para voltar a alisar, se quiser. O cruel é sequer ter a chance de saber como é nosso cabelo.”

Taís Araujo reflete sobre identidade, beleza e a decisão de mudar o visual aos 47 — Foto: Hudson Rennan (FSag)

Desse reencontro consigo mesma nasce a leveza com que agora trata o cabelo: não mais como um marcador de identidade a defender, mas como uma entre muitas formas de existir. “Hoje posso estar assim, curtinha, e amanhã botar uma lace lisa. Também vai ser meu cabelo.”

É essa lógica que permeia seus trabalhos com o mercado de beleza, e ser parte dele há três décadas lhe deu um assento para ver o padrão mudar. “Quando cheguei, era bastante europeu. Uma pessoa preta por novela, uma por capa de revista.” Lembra do dia em que ouviu, em uma redação, que já havia três atrizes negras em capas seguidas, como se fosse demais.

“Quando eram três loiras, vocês sequer se questionavam.” Foi assim que encontrou o nome do que via: tokenismo, prática de fazer um esforço simbólico para incluir pessoas de grupos minoritários sem promover mudanças estruturais reais. “Quando você tem um, você não tem nenhum.” Passou a bater na porta das redações cobrando presença negra não só nas capas, mas dentro das equipes.

“A identidade de um país é construída pela teledramaturgia, pelo jornalismo, pela publicidade. O Brasil se fez racista. Mas, agora que a gente entendeu, a chance da reconstrução e a responsabilidade estão nas nossas mãos.”

Taís Araujo reflete sobre identidade, beleza e a decisão de mudar o visual aos 47 — Foto: Hudson Rennan (FSag)

Essa consciência do próprio lugar é o que ela leva para a passarela. Porta-voz da L’Oréal Paris há 17 anos, Taís é uma das estrelas do Le Défilé, desfile anual que a marca realiza em Paris, na Place Joffre, com a Torre Eiffel ao fundo, e que abre a semana de moda francesa. Desde sua primeira participação, sentiu o tamanho do evento e reagiu no caminho contrário do que o medo pediria. “Pensei: mereço estar aqui.”

Neste ano, foi onde revelou o novo visual e dividiu o palco com outras três brasileiras pela primeira vez: Anitta, com quem já havia desfilado, e as estreantes Liniker e Bella Campos. Ver mais mulheres ocupando aquele espaço é presenciar o que cobrava virando realidade.

Taís Araujo reflete sobre identidade, beleza e a decisão de mudar o visual aos 47 — Foto: Hudson Rennan (FSag)

Poucos lugares dão tanta liberdade para se permitir como o palco, e é nele que ela vive agora a fase mais autoral da sua carreira. Mudando de pele, seu primeiro trabalho solo no teatro, nasceu de uma decisão prática e política. Pediu uma pesquisa de monólogos escritos por mulheres, escolheu o texto da inglesa Amanda Wilkin, chamou Yara de Novaes para dirigir e montou uma equipe quase inteiramente feminina. A peça, em que vive Mayah, mulher de quase 40 anos disposta a romper com o que já não faz sentido, passou por Rio, São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre com temporadas esgotadas, e agora salta de teatros de 600 lugares para casas de até 2.000.

“As malucas vão. Fé nas malucas. Bora arriscar”, diz ela.

O teatro autoral, ela faz questão de dizer, só existe porque existe a atriz popular. “Só posso fazer essa peça do jeito que faço porque tenho uma carreira na televisão aberta. E eu amo fazer novela.”

Está agora em A nobreza do amor, trama das 18 horas da Globo, no papel de Menemi, rainha do Reino de Zinga, aliada da protagonista Alika e inimiga do vilão vivido por Lázaro Ramos, seu marido fora da ficção. Transitar entre o erudito e o pop foi um aprendizado contra o esnobismo que ela própria diz já ter carregado.

“Quando saí do subúrbio para morar na Barra, tive que fingir ser uma coisa que não era para pertencer. Mas posso ler Toni Morrison, bell hooks, Patricia Hill Collins e também um best-seller água com açúcar e achar que me contemplou. Para mim tem o mesmo valor.”

Taís Araujo reflete sobre identidade, beleza e a decisão de mudar o visual aos 47 — Foto: Hudson Rennan (FSag)

“Quando saí do subúrbio para morar na Barra, tive que fingir ser uma coisa que não era para pertencer. Mas posso ler Toni Morrison, bell hooks, Patricia Hill Collins e também um best-seller água com açúcar e achar que me contemplou. Para mim tem o mesmo valor.”

O mesmo revezamento organiza a casa. Casada com Lázaro há 22 anos, os dois se dividem entre quem viaja e quem segura a rotina – só que, agora, ambos gravam novela ao mesmo tempo. “Ele está sobrecarregado. Eu me sinto culpada, sim.” Ainda assim, voltar a contracenar com o marido foi o reencontro que ela mais queria. “Quando a gente está trabalhando junto, funciona melhor em casa também.”

Taís Araujo reflete sobre identidade, beleza e a decisão de mudar o visual aos 47 — Foto: Hudson Rennan (FSag)

O que ainda dá frio na barriga é o ato mais elementar da profissão: entrar em cena. “Nada está garantido. Não é porque tenho 30 anos de carreira que vou entregar uma cena incrível toda vez. É uma metáfora maravilhosa da vida: a gente não tem controle de nada.” A menina do romance de Morrison reza por outros olhos e nunca chega a se enxergar. Taís fez o inverso: apareceu inteira e abriu espaço para que outras aparecessem.

“Quando cheguei, o padrão era uma pessoa preta por novela, uma por capa de revista”

Taís Araujo reflete sobre identidade, beleza e a decisão de mudar o visual aos 47 — Foto: Hudson Rennan (FSag)
Entrevista: Olivia Nicoletti
Fotos: Hudson Rennan (FSag)
Diretor de arte: João Pessoni (Eden.)
Diretora de moda: Larissa Lucchese
Beleza: Silvio Giorgio (Capa Mgt)
Set designer: Poll Studio
Produção executiva: Vandeca Zimmermann
Tratamento de imagem: Vetro Retouching
Produtor de moda: Renan Kawano
Assistente de moda: Vinicius Rodalm
Assistente de beleza: Julia Bueno
Camareira: Deisoca Gomes
Contrarregra: João Ribeiro
Assistente de fotografia: Pedro Saad
Agradecimento: Tino Estúdios
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