Novos recursos do Apple Watch, como Siri Recap, aumentam debate sobre proteção de dados e privacidade do usuário; confira o que dizem especialistas de segurança

Os novos Apple Watch Series 12 e Apple Watch Ultra 4 chegam com recursos que prometem tornar o relógio um assistente ainda mais presente na rotina. Entre as novidades, o Audio Intelligence chama atenção por usar o microfone do dispositivo para reconhecer sons, identificar músicas e ajudar o usuário a recuperar e organizar informações de conversas recentes. A proposta é trazer mais praticidade, mas também levanta dúvidas sobre privacidade e proteção de dados: afinal, até que ponto o Apple Watch pode ouvir o que acontece ao redor do usuário?

Para entender os possíveis impactos dessa tecnologia e os riscos envolvidos, o TechTudo conversou com Fabio Marenghi, pesquisador líder de segurança da Kaspersky, e Mario Micucci, investigador de segurança da informação da ESET Latinoamérica. Os especialistas explicam quais cuidados devem ser considerados ao utilizar recursos que processam áudio e o que pode acontecer com as informações captadas pelo dispositivo.

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Apple anunciou os lançamentos dos novos Apple Watch Series 12 e Apple Watch Ultra 4, com recursos como Siri Recap — Foto: Reprodução/Apple

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Novo Apple Watch escuta você o tempo todo; entenda riscos à privacidade

Veja no índice a seguir os tópicos abordados nesta matéria:

- Audio Intelligence e a nova era dos Apple Watches

- Como funciona a Siri Recap?

- Como a Apple garante a privacidade e segurança das informações?

- Há riscos à privacidade?

- Não é só o Apple Watch; veja outros dispositivos que ouvem você

Audio Intelligence e a nova era dos Apple Watches

O Audio Intelligence é uma das novidades nos novos Apple Watches, como o Series 12 e o Ultra 4. A tecnologia usa o microfone integrado e o processamento do chip S11 para reconhecer sons, registrar informações de áudio e ajudar o usuário a recuperar conteúdos que poderiam passar despercebidos durante o dia. Entre os recursos disponíveis estão o Sound Recognition, o Shazam, o Live Rewind e o Siri Recap.

O Sound Recognition, ou Reconhecimento de Som, identifica sons específicos no ambiente e envia alertas ao usuário. É possível, por exemplo, receber uma notificação quando o Apple Watch detectar um bebê chorando, uma sirene, uma campainha ou uma buzina. A função pode ser especialmente útil para pessoas com deficiência auditiva. Já o Shazam permite identificar músicas que estão tocando no ambiente, informando o nome da faixa e do artista. Em ambos os casos, o iPhone não precisa estar próximo ao usuário para ativar o recurso.

Siri Recap é um dos novos recursos da Apple que levantou polêmica — Foto: Reprodução/Apple

Porém, as funções que mais chamam atenção são o Live Rewind e o Siri Recap, que ampliam a capacidade do Apple Watch de interpretar informações. O Live Rewind permite recuperar o que foi dito em uma conversa recente. Ao realizar um comando específico no relógio, o usuário pode acessar uma transcrição pontual dos últimos 15 segundos de diálogo. Também é possível pedir à Siri que salve o registro para consultar posteriormente.

É aí que entra o Siri Recap. A ferramenta utiliza a Inteligência Artificial da Apple para criar resumos de conversas e outros conteúdos de áudio registrados ao longo do dia. Em vez de apresentar uma transcrição completa, a Siri organiza as informações em anotações, com um título e os principais pontos identificados no diálogo. Segundo a Apple, a ideia é permitir que o “usuário permaneça mais presente”, sem precisar se preocupar em memorizar ou anotar todas as informações importantes.

Como funciona a Siri Recap?

O Siri Recap é um recurso integrado à Siri que utiliza a IA para organizar informações captadas pelo Apple Watch e apresentar um resumo diário ao usuário. De acordo com a Apple, o recurso não tem como objetivo fornecer uma transcrição completa de tudo o que foi dito, mas apresentar anotações pontuais sobre os principais conteúdos identificados.

O usuário também pode controlar quando o recurso estará ativo. É possível, por exemplo, configurar períodos específicos para permitir os registros ou determinar horários em que a função não deve ser acionada, como durante a noite ou em determinados ambientes.

Apple garante proteção à privacidade dos usuários — Foto: Reprodução/Unsplash
Como a Apple garante a privacidade e segurança das informações
Segundo a Apple, a proteção das informações é baseada em diferentes mecanismos, que incluem processamento local, criptografia e anonimização. A empresa afirma que o áudio captado não é gravado nem armazenado e que o conteúdo não pode ser acessado, nem mesmo pela Apple. As pessoas do diálogo também não são identificadas e as informações geradas pelos recursos são protegidas por criptografia.
De acordo com a Apple, o chip S11 conta com um compartimento de hardware isolado, responsável por processar o áudio separadamente do restante do sistema. Depois do processamento, as informações são deletadas, segundo a companhia. A Apple também afirma que o Siri Recap conta com mecanismos para filtrar informações sensíveis. Dessa forma, dados como informações financeiras seriam excluídos antes que o conteúdo fosse utilizado pelo recurso para gerar resumos.
Novos smartwatches da Apple podem ouvir o usuário o tempo todo — Foto: Reprodução/Apple
Outro mecanismo de transparência está presente no Live Rewind. Quando a função é ativada, o Apple Watch emite um aviso sonoro, mesmo quando o dispositivo está no modo silencioso, e exibe uma animação com o símbolo de um microfone. A intenção é indicar às pessoas próximas que o recurso está sendo utilizado naquele momento.
Apesar das medidas anunciadas pela Apple, o processamento de informações de áudio ainda gera preocupações entre usuários e especialistas em segurança. Para o pesquisador líder de segurança da Kaspersky, Fabio Marenghi, há desafios tanto para a empresa quanto para os usuários. “O fabricante deve garantir que o processamento desse áudio seja feito localmente e não enviado para servidores na nuvem, onde fica mais vulnerável a vazamentos. Além disso, o usuário precisa garantir que a conta conectada ao relógio não seja invadida por criminosos”, aponta Marenghi.
Há riscos à privacidade?
O avanço de recursos capazes de captar, interpretar e resumir sons do ambiente amplia o debate sobre privacidade e segurança de dados. No caso dos novos Apple Watches, uma das principais questões é entender quais informações podem ser obtidas pelo dispositivo e quais riscos existem caso esses dados sejam acessados por terceiros.
A própria Apple já esteve envolvida em episódios relacionados à privacidade da Siri. Em 2019, o The Guardian revelou que funcionários tinham acesso às gravações feitas pela assistente virtual. Na época, a companhia afirmou que os áudios eram utilizados para melhorar o sistema e que apenas uma pequena parcela era analisada.
Já em 2025, a Apple concordou em pagar US$ 95 milhões para encerrar uma ação nos Estados Unidos na qual usuários alegavam que a Siri havia sido ativada acidentalmente e que conversas privadas teriam sido registradas e compartilhadas com anunciantes. A empresa negou as acusações.
Riscos à privacidade fazem parte do debate após anúncio de novos recursos de áudio da Apple — Foto: Reprodução/Unsplash
Diante desse histórico, uma das questões é se as medidas anunciadas pela Apple são suficientes para proteger as informações processadas pelos novos recursos. Para o investigador de segurança da informação da ESET Latinoamérica, Mario Micucci, a preocupação não deve se limitar ao áudio captado pelo relógio. “Mesmo sem salvar o áudio, um resumo em texto pode expor informações sensíveis. A Apple indica que os textos salvos são sincronizados com criptografia. Ainda assim, o acesso a um dispositivo desbloqueado ou a exportação para outros aplicativos podem criar novas vulnerabilidades”, afirma.
Outro possível risco está relacionado ao uso criminoso de informações obtidas a partir desses registros. Fabio Marenghi cita cenários como espionagem, extorsão e exposição da rotina do usuário caso informações pessoais sejam acessadas. Ainda segundo o especialista, o aperfeiçoamento da Inteligência Artificial também cria novas possibilidades. “Com o avanço da IA, um dos maiores riscos é a clonagem de voz (deepfake). Com acesso a horas de áudio captado pelo relógio, invasores podem criar uma cópia perfeita da voz da vítima para aplicar golpes financeiros em seus familiares pelo WhatsApp ou telefone”, alerta.
Vale ressaltar que os riscos de privacidade não envolvem apenas o proprietário do Apple Watch. Pessoas que participam de uma conversa também podem ter suas vozes e informações captadas pelo dispositivo, mesmo sem serem donas do relógio. No Brasil, essa questão envolve a legislação de proteção de dados. “A LGPD protege esses dados sempre que se relacionarem a uma pessoa identificada ou identificável, mesmo que o processamento ocorra sem salvar a gravação. O consentimento é uma das bases possíveis, mas a autorização do dono do dispositivo não valida automaticamente o tratamento de dados de terceiros”, afirma Micucci.
Não é só o Apple Watch; veja outros dispositivos que ouvem você
Apesar dos novos recursos do Apple Watch terem chamado atenção por questões relacionadas à privacidade, a capacidade de registrar, transcrever e resumir conversas já está presente em outros dispositivos.
Um exemplo é o Notepin, da Plaud, um gravador de Inteligência Artificial que pode ser utilizado para registrar situações do cotidiano. Assim como o Siri Recap, o dispositivo consegue transcrever e resumir conteúdos de áudio, transformando conversas em textos. Por ter um formato discreto, o aparelho pode passar despercebido.
Também é possível encontrar em lojas virtuais e marketplaces, como a Amazon.com, canetas e outros objetos com funções de gravação de áudio. Esses produtos têm aparência semelhante a de itens convencionais, mas são capazes de captar e armazenar sons.
A função também não está restrita a dispositivos desenvolvidos especificamente para gravação. Smartphones e modelos anteriores do Apple Watch, por exemplo, podem realizar tarefas semelhantes por meio de aplicativos de transcrição e Inteligência Artificial. Um deles é o Wave, app que permite gravar, transcrever e resumir conversas e ligações.
Com informações de Apple, Plaud, Tech Crunch, Tech Radar, Wave e The Guardian
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