Matheus Leitão

Daniella Marques durante Coletiva de imprensa após a solenidade de posse da nova presidente da Caixa 7
Daniella Marques durante Coletiva de imprensa após a solenidade de posse da nova presidente da Caixa 7 · Imagem: Gustavo Moreno/Metrópoles

De parasita, com Guedes, a obsoleto, com Dani Marques: campanha de Flávio quer IA no lugar de concursado e conta com Congresso para avançar

Sonha com concurso? Coordenadora de Flávio quer trocar servidor por IA
Sonha com concurso? Coordenadora de Flávio quer trocar servidor por IA · Imagem: Source: www.metropoles.com

Matheus Leitão

22/10/2026 11:39

Gustavo Moreno/Metrópoles

Quem estuda para concurso deveria prestar atenção na última semana.

Na segunda-feira (19/10), Milei lançou um plano para eliminar mais 20 mil postos públicos na Argentina, somados aos mais de 77 mil já cortados desde dezembro de 2023. No mesmo dia, no programa Pânico, Daniella Marques, coordenadora econômica de Flávio Bolsonaro, defendeu substituir por IA servidores que se aposentarem, em vez de abrir concursos. Na quarta, o Correio Braziliense revelou que Flávio já teria mais de 200 decretos prontos.

Milei dá o modelo, Daniella dá o método, Flávio prepara a caneta. Coincidência?

O modelo

Depois de visitar Milei em junho, Flávio escreveu: “Se na Argentina teve motosserra, no Brasil terá tesouraço”. Adotou até o símbolo, um broche de tesoura. Daniella disse a empresários que o governo argentino será usado como inspiração. Lá, quem aderir ao plano tem o cargo extinto e fica oito anos fora do setor público. O sindicato dos estatais chama o programa de “demissão extorsiva”.

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O método

Se Milei corta, Daniella propõe não repor: vagas abertas por aposentadoria passariam aos poucos para sistemas de IA. Ela não disse quantas vagas, quais carreiras nem como os serviços seguiriam funcionando. É a motosserra em câmera lenta.

A caneta

Aqui as peças se encaixam. Pela Constituição, o presidente só pode extinguir por decreto cargos que estejam vagos. Não repor e depois extinguir é o atalho, e a família já o usou: em 2019, Jair Bolsonaro decretou o fim de cargos vagos e dos que viessem a vagar.

O pacote de Flávio também prevê um “revogaço” de decretos de Lula e restrições à fiscalização ambiental em propriedades privadas. Parte das medidas precisaria do Congresso, mas aliados contam com o novo Legislativo para aprová-las sem dificuldade.

O Congresso

A confiança tem base. O PL elegeu 121 deputados e deve chegar a 28 senadores, a maior bancada partidária no início de uma legislatura desde 1988. A direita terá ao menos 50 das 81 cadeiras do Senado.

É o Senado que aprova ministros do STF, PGR, Banco Central, agências reguladoras, Cade e embaixadores, além de julgar o impeachment de ministros do Supremo, que exige 54 votos. Na campanha, Flávio pediu justamente uma bancada capaz de pressionar o Supremo. Com Planalto e Senado alinhados, a sabatina tende a virar carimbo.

O último anteparo

Quando todo o comando muda de mãos, quem segura o Estado é o servidor concursado. É o auditor que não arquiva a autuação do aliado, o fiscal que lavra a multa, o técnico que assina o parecer contrário. A estabilidade existe para que ele responda à lei, e não a quem manda.

O plano de Flávio promete continuar a reforma administrativa sem dizer como. Questionado pelo Extra sobre o funcionalismo, foi o único de seis candidatos que não respondeu. O que se sabe até agora é a proposta de sua coordenadora: trocar servidores por IA.

De parasita a algoritmo

Em 2020, Paulo Guedes disse sobre o servidor: “o cara virou um parasita”. Foi condenado em primeira instância a pagar R$ 50 mil. Daniella integrou aquela equipe e hoje cumpre, com Flávio, o papel que Guedes teve com Bolsonaro.

Mudou o vocabulário, ficou a lógica. Em 2020, o servidor era parasita. Em 2026, é obsoleto, substituível por software.

Milei corta. Daniella não repõe. Flávio assina decretos, com um Congresso a favor. Separadas, são três notícias. Juntas, desenham um projeto. Para quem sonha com o concurso, a pergunta não é se é coincidência. É se ainda vai haver vaga.