No litoral recortado da Noruega, turbinas brancas giram sobre a paisagem baixa de Smøla. Em 2013, pesquisadores transformaram quatro delas em um teste incomum, pintando uma das três pás de preto. Anos depois, o resultado chamou atenção: a mortalidade anual de aves caiu mais de 70% nas torres tratadas em relação às turbinas de controle.

Por que uma pá preta mudou o experimento de Smøla?

Entre 1º e 8 de agosto de 2013, pesquisadores pintaram de preto uma das três pás de quatro turbinas eólicas. Eles mantiveram quatro turbinas vizinhas sem pintura especial, criando um grupo de controle para comparar o que aconteceria antes e depois. Assim, cada unidade tratada tinha uma vizinha semelhante para ajudar a separar o efeito da cor de outras variações locais.

O desenho seguiu uma comparação conhecida como antes, depois, controle e impacto. Os pesquisadores já reuniam registros de mortalidade desde 2006, portanto havia uma base longa para medir mudanças. Com isso, a experiência não dependia apenas de contar aves após a pintura, mas de comparar tendências entre turbinas tratadas e controles ao longo dos anos. O método também reduz o risco de confundir uma mudança geral no parque com um efeito realmente ligado à pintura.

🎨 2013: Uma das três pás recebe tinta preta em quatro turbinas.

📊 2020: O estudo relata queda superior a 70% na taxa anual de mortalidade.

🔎 Limite: Os autores recomendam repetir o teste em outros parques eólicos.

O que aconteceu depois da pintura das pás?

Uma das três pás recebe preto para aumentar o contraste visual - Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)

O resultado publicado em 2020 mostrou uma redução média de 71,9% na taxa anual de mortalidade das aves nas turbinas tratadas. O estudo original na Ecology and Evolution comparou essas unidades com quatro controles vizinhos, todos mantidos com as três pás brancas. Portanto, o percentual descreve uma diferença relativa entre os dois grupos, não a eliminação completa das colisões.

O efeito apareceu com força especial entre aves de rapina, segundo os autores. Antes da intervenção, seis águias de cauda branca haviam sido encontradas mortas nas turbinas que receberiam a pintura. Depois, nenhuma carcaça dessa espécie apareceu nessas quatro unidades durante o período analisado. Mesmo assim, os pesquisadores destacaram a amostra reduzida e recomendaram repetir o método em outros parques para testar sua generalização. A série analisada cobriu anos antes e depois da intervenção, reforçando a comparação temporal.

Por que o preto pode ajudar as aves a enxergar as pás?

Pás claras girando rapidamente podem produzir um borramento visual, dificultando a percepção de cada lâmina como obstáculo separado. A ideia testada em Smøla foi simples: uma pá preta criaria contraste durante a rotação e quebraria parte desse efeito. Dessa forma, a turbina poderia ficar mais perceptível a tempo de uma ave alterar sua trajetória. A hipótese aproveitou pesquisas anteriores sobre percepção visual e objetos em movimento.

Segundo o Instituto Norueguês de Pesquisa da Natureza (NINA), o aumento de contraste ajuda aves a detectar a estrutura e evitar colisões. Porém, pintar pás instaladas exigiu recursos consideráveis no experimento. Por isso, o instituto afirma que aplicar a pintura antes da montagem pode reduzir o custo, sem sustentar que a intervenção seja praticamente gratuita. A vantagem econômica depende, portanto, de quando a medida entra no projeto.

Smøla já era um laboratório natural para estudar aves e turbinas

O teste ocorreu em um dos parques eólicos mais acompanhados da Noruega. A Statkraft informa que o complexo tem 68 turbinas e 150 MW de capacidade instalada e começou a operar em 2002. A segunda etapa entrou em serviço em 2005, enquanto o conjunto ocupa terreno aberto entre 10 e 40 metros acima do nível do mar.

Esse cenário favoreceu anos de observações sobre a interação entre aves e geração eólica. Desde 2006, pesquisas em Smøla usaram buscas sistemáticas com cães treinados, além de outras formas de monitoramento. Assim, o experimento de 2013 entrou em uma série extensa de dados, algo raro nesse tipo de estudo. Ainda assim, apenas quatro turbinas receberam a pá preta, razão central para a cautela dos autores. O parque inteiro, portanto, oferece contexto amplo, mas o teste específico permaneceu pequeno.

Comparação

Resultado observado

Turbinas tratadas

Quatro unidades receberam uma pá preta e apresentaram redução média de 71,9% na taxa anual relativa ao controle.

Turbinas de controle

Quatro unidades vizinhas permaneceram com as três pás brancas durante a comparação.

Uma pá preta e uma pergunta aberta

Smøla mostrou que uma alteração visual simples pode reduzir colisões sem mudar a função básica de uma turbina. Porém, oito unidades formam uma amostra pequena, e os pesquisadores ainda pedem novos testes em outros locais antes de generalizar o resultado. Se você se interessa por soluções ambientais discretas, vale acompanhar como outros parques repetem essa experiência. A ilha norueguesa deixa uma lição útil: tornar uma estrutura mais visível pode ajudar, desde que novas pesquisas confirmem o efeito em diferentes paisagens.

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