Júlio Emílio da Gama (4 de janeiro de 1854 – ?) foi um médico, professor e pesquisador brasileiro. Graduado pela Faculdade de Medicina da Bahia (FMB) em 1880, destacou-se como clínico nas Lavras Diamantinas do Sincorá, colaborador da Gazeta Médica da Bahia, voluntário no atendimento aos feridos da Guerra de Canudos (1897), professor do Gymnasio da Bahia e membro do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB). Em 1900, alterou oficialmente seu nome para Julio da Gama.

Formação Júlio Emílio da Gama nasceu em 4 de janeiro de 1854. Em 1879, quando ainda era estudante do 5.o ano da FMB, foi classificado em primeiro lugar no concurso para o internato de clínica cirúrgica do Hospital de Caridade de Salvador, ao lado de Davino Nomísio de Aquino. Como interno, foi responsável pelo relatório do movimento da clínica cirúrgica do ano letivo de 1879, documento que registra 210 entradas, 154 saídas, 11 óbitos e 31 operações realizadas sob sua supervisão, entre amputações, ressecções, ligaduras vasculares e uretrotomias. Nesse período, realizou autópsia no corpo do marinheiro português Henrique José Pereira, vítima de queda de mastro com complicação de meningo-encefalite, ao lado do colega Davino Nomísio de Aquino, na sala de dissecções da FMB, em 5 de junho de 1879. O caso foi publicado por Deocleciano Ramos na revista acadêmica O Século. No mesmo ano, participou como orador em sessão solene da Sociedade Democrática Classe Caixeiral de Salvador, sendo identificado nos registros como "intelligente academico". Graduou-se pela FMB em 1880, sendo listado no levantamento nominal dos formados da instituição.

Atuação nas Lavras Diamantinas (c. 1880–1891) Após a formatura, estabeleceu-se como clínico nas Lavras Diamantinas do Sincorá, região de garimpo de diamantes no interior da Bahia, tendo como base a cidade de Lençóis. Entre 1884 e 1889, publicou cinco artigos na Gazeta Médica da Bahia, principal periódico médico-científico do estado.

Febres palustres no Sincorá (1884) Em seu primeiro artigo, datado de Lençóis, 1.o de setembro de 1884, tratou da sintomatologia das febres intermitentes e remitentes na região, contestando Jaccoud sobre o horário dos acessos febris e concordando com observações de Botkin na Rússia. Incluiu casos clínicos detalhados de febres perniciosas, entre eles o de um paciente com comprometimento visceral generalizado e o de um português com retenção urinária por febre intermitente perniciosa contraída nas margens do rio Santo Antônio.

Caso de ovarite (1887) Relatou o caso de uma mulher de 44 a 45 anos com ovarite supurada tratada durante três meses, em que utilizou cloridrato de pilocarpina em injeção subcutânea, observando efeitos diurético e purgativo que considerou incomuns e que resultaram na drenagem espontânea do abscesso pelo reto.

Águas termais de Água Quente (1888) Relatou visita a poços de águas minerais quentes no lugar denominado Água Quente, que situou "no norte de Minas", a 14 léguas da vila de Boa Vista do Tremedal e 15 léguas da vila de Santo Antônio da Barra (atual Encruzilhada). Realizou medições termométricas em quatro poços da margem esquerda do rio, encontrando temperaturas entre 37,5 °C e 38,5 °C, e observou que as águas eram fortemente alcalinas, emulsionando gorduras e facilitando as digestões. No mesmo artigo, mencionou conhecer também as águas termais do lugar denominado Água Quente no Morro do Fogo, na própria província da Bahia, com presença de cloreto de sódio. A região descrita situa-se na zona de fronteira entre Bahia e Minas Gerais, cuja delimitação era imprecisa no século XIX. O Arraial de Água Quente no Morro do Fogo corresponde à atual cidade de Érico Cardoso, na Bacia do Paramirim, Bahia, cujo povoado se desenvolveu justamente em razão da presença de águas termais, tendo sido elevado a vila em 1878 com o nome de "Industrial Vila de Água Quente", precursora do município de Paramirim. O relato de Júlio da Gama constitui um dos registros mais antigos sobre as propriedades terapêuticas dessas fontes termais.

Climatologia do centro da Bahia (1888) Realizou mapeamento geográfico das zonas de febre palustre no centro da província, percorrendo sistematicamente os rios Paramirim, Verde, Grande (Caraíba), Jussíape (rio de Contas), Brumado, Taquaril, rio do Antônio e rio do Ourives. Incluiu observações sobre o impaludismo crônico nas populações ribeirinhas e uma crítica aos casamentos consanguíneos no sertão.

Continuação das observações (1889) Em agosto de 1889, ampliou as observações do primeiro artigo para um período de oito anos, com descrições de comprometimento gástrico, hepático e cerebral pelas febres palustres, proposta de sinal patognomônico conjuntival do impaludismo, diferenciação entre febre perniciosa biliosa e febre amarela, denúncia de falsificação de sulfato de quinina importado da Europa, e relato de experiência com antipirina e antifebrina. Mencionou que ele próprio foi acometido pela malária.

Socorro às vítimas da seca (1891) Em 1891, ainda atuando como clínico em Lençóis, participou de ações de socorro às vítimas da seca, dirigindo comunicações ao inspetor de higiene sobre o estado dos indigentes acometidos de febres diversas no distrito de Queimadas.

Engajamento político (1890) Em 1890, figurou como candidato a deputado na chapa do "eleitorado independente" para o Congresso Constituinte, ao lado de nomes como Virgílio Climaco Damazio, César Zama, Manuel Victorino Pereira e Amphilophio Botelho Freire de Carvalho.

Guerra de Canudos (1897) Em 1897, atuou como Preparador Interino da Cadeira de Anatomia Médico Cirúrgica da FMB e foi designado para a Enfermaria Conselheiro Pertence, Hospital Kekulé, instalada no Mosteiro de São Bento, em Salvador, para o tratamento dos feridos da Guerra de Canudos. Sob sua supervisão atuaram como auxiliares os acadêmicos Antônio Bastos de Freitas Borja (futuro catedrático da FMB), Evaristo Romero d'Araújo e Joaquim da Matta e Albuquerque. Seu nome consta no ofício do Dr. José Olympio de Azevedo, datado de 13 de novembro de 1897, que lista os médicos que prestaram serviços na enfermaria militar provisória de São Bento entre agosto e novembro daquele ano.

Professor e membro do IGHB (1900–1903) Em 1900, comunicou à Congregação da FMB a alteração de seu nome de Júlio Emílio da Gama para Julio da Gama. Em registros de 1903, aparece como professor de Mecânica e Astronomia no Gymnasio da Bahia, com endereço na Rua da Lapa, 12, em Salvador. No mesmo período, integrava a comissão de Estatística e Demographia do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia.

Legado e família Seu filho, Durval Tavares da Gama (Bahia, 18 de julho de 1886 – Salvador, 1946), formou-se em Farmácia e posteriormente em Medicina pela FMB, defendendo tese doutoral em 20 de julho de 1909 (93.a turma), intitulada Estudo das causas mais communs das hemorrhagias antes, durante e depois do parto (FAMEB: 109-F), na qual cita casos clínicos do pai como observações obstétricas. Defendeu ainda a tese Adenites tuberculosas cirúrgicas na infância (FAMEB: 122-C). A carreira docente de Durval Tavares da Gama na FMB foi inteiramente documentada em decretos presidenciais e registros institucionais: preparador interno de Anatomia Médico-Cirúrgica (1909, efetivado em 1910), assistente efetivo da 3.a Cadeira Clínica Cirúrgica, livre-docente da mesma disciplina (1911), professor substituto de Clínica Pediátrica Cirúrgica e Ortopedia (1922), catedrático por concurso de Patologia Cirúrgica (1925, nomeado por decreto presidencial) e, finalmente, transferido por decreto presidencial para a cátedra de Clínica Cirúrgica Infantil e Ortopedia, cargo no qual faleceu. Foi também nomeado substituto da 7.a secção do Gymnasio da Bahia em 1915. Fora da FMB, foi professor catedrático de História Natural da Faculdade de Ciências Econômicas (da qual exerceu a direção por vários anos), catedrático de Higiene do Colégio da Bahia e diretor do Instituto de Pensões dos Portuários, sendo criador e organizador do Posto Médico daquela instituição. Foi sócio fundador e presidente da Sociedade de Pediatria da Bahia (1937) e sócio fundador da Liga Bahiana Contra a Mortalidade Infantil. Em 1932, apresentou trabalho sobre técnica cirúrgica para prolapso anorretal em crianças no Congresso de Cirurgia do Rio de Janeiro, cujo resumo foi publicado na seção Foreign Letters do Journal of the American Medical Association. Recebeu gratificação de magistério por decreto presidencial em 1941 e 1942, no padrão M, o mais alto da carreira docente federal. Era casado com Adalgisa Freitas da Gama, filha do Dr. Carlos Freitas, professor da Faculdade de Medicina da Bahia, e de D. Amelia Sanches de Freitas. O casal celebrou bodas de prata em 1935, com missa votiva na matriz de Nazareth, em Salvador. Tiveram quatro filhos: Carlos Freitas da Gama (médico, assistente da clínica infantil da FMB), Durval Gama Filho, Amelia Freitas da Gama e Carmem da Gama Tude. Seu retrato a óleo está exposto na Sala do Hall do Salão Nobre da FMB, no Terreiro de Jesus, Salvador. Em Salvador, duas vias públicas homenageiam-no: a Rua Professor Durval Gama, no bairro de Santo Agostinho (CEP 40301-110), e a Rua Professor Durval Gama, no bairro do Matatu (CEP 40255-270).

Publicações GAMA, Julio da. "Algumas observações sobre as febres palustres nas Lavras Diamantinas do Sincorá, feitas durante tres annos". Gazeta Médica da Bahia, série IV, vol. II, p. 270–277, 1884. GAMA, Julio da. "Um caso de ovarite terminada por suppuração e abertura no recto — Effeito da pilocarpina". Gazeta Médica da Bahia, série III, vol. IV, p. 511–514, 1887. GAMA, Julio da. "Breve notícia sobre as águas thermaes do logar denominado Água Quente". Gazeta Médica da Bahia, p. 95–96, 1888. GAMA, Julio da. "Climatologia do centro da província da Bahia". Gazeta Médica da Bahia, p. 266–273, 1888. GAMA, Julio da. "Algumas observações sobre as febres palustres nas Lavras Diamantinas do Sincorá" (continuação). Gazeta Médica da Bahia, série III, vol. VII, p. 217–225, 1889.

Referências

Ver também Faculdade de Medicina da Bahia Gazeta Médica da Bahia Guerra de Canudos Chapada Diamantina Lençóis (Bahia)