Tifanny desabafa sobre chance de não jogar a Superliga

A Justiça do Rio de Janeiro concedeu uma liminar que determina que a CBV permita a participação de Tifanny Abreu na partida contra o Praia Clube, na noite desta sexta-feira, pela Supercopa, e nos demais jogos da Superliga. Caso a oposta seja proibida de entrar em quadra, a federação poderá ser multada.

— A medida deverá ser cumprida imediatamente, de modo a viabilizar a participação da autora na partida desta data, sob pena de multa de R$ 5.000,00 (cinco mil reais) por partida em que a autora for impedida de atuar em razão do descumprimento — afirma a Justiça no documento que concede a liminar.

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No final da tarde da última quinta-feira, as inscrições das atletas do Osasco Vôlei foram aceitas pela CBV, com exceção de Tifanny, que ficou com a oficialização do registro pendente.
Diante disso, a assessoria jurídica da atleta e do clube acionou a Justiça Desportiva com um mandado de garantia para o pedido de liminar a fim de garantir que ela possa participar da Supercopa e da Superliga enquanto o caso é analisado definitivamente pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD).
No fim da manhã desta sexta-feira, a Justiça Desportiva negou a liminar e, a partir disso, a assessoria jurídica que cuida do caso da oposta com o clube apresentou um recurso ao Tribunal Pleno do STJD e entrou com o pedido de liminar na Justiça comum. A liminar, então, foi concedida uma hora e meia antes do jogo contra o Praia Clube que acontece em São Luís do Maranhão.
— A liminar concedida, embora seja uma decisão provisória, é uma decisão que visa resguardar o direito adquirido da Tiffany enquanto o caso não for julgado. Sem dúvida, é uma vitória muito importante para resguardar o status atual, ou seja, de elegibilidade dela para a prática do esporte — declarou o advogado Luis Fernando Novaes ao ge.globo.
Além do principal argumento baseado na Constituição Federal, a defesa de Tifanny apresentou todos os estudos técnicos e científicos asseguravam a participação da atleta nas competições com o Osasco há cinco anos. O advogado Luis Fernando Novaes lamenta a condução da CBV no caso:
— A Constituição Federal diz que uma nova norma não pode revogar o direito que ela tem de exercer sua profissão, o que ela vinha fazendo há tantos anos. Ela participou das competições que garantiram o lugar do Osasco na Supercopa, diante disso, é direito da atleta que contribuiu com a campanha estar disputando o campeonato. Não houve uma espécie de diálogo com atleta e clube que mostrasse a intenção da federação. Foi uma canetada de um dia para noite — disse o advogado.
No início de outubro, Tifanny Abreu fez um forte desabafo no evento de lançamento da Superliga 2026/27, sobre nova regra que bane atletas trans de competições femininas de vôlei. Mesmo sem saber se poderá disputar a competição por causa da nova política de elegibilidade adotada pela Confederação Brasileira de Vôlei (CBV), a oposta representou o Osasco na cerimônia. Na saída, se emocionou ao comentar a situação. Ela afirmou que lutará pelo direito de voltar às quadras.
Técnico do Osasco, Luizomar comenta sobre situação de Tifanny na Superliga
— Quero terminar a minha carreira de atletas com o pé direito, digna de uma aposentadoria, digna de falar eu comecei, eu terminei, eu inspirei e agora vou começar a ajudar outras pessoas fora de quadra. Não assim expulsa, não assim proibida, jogada na sarjeta como se nada tivesse acontecido. Eu espero que algo possa mudar. Se não for uma boa conversa, de bom acordo, que seja na Justiça. E que a justiça possa estar do meu lado, porque não faço nada de errado, só estou trabalhando — afirmou Tifanny.
Tiffany compareceu ao lançamento da Superliga mesmo impedida de jogar — Foto: Beatriz Cesarini
A jogadora de 41 anos disputa a Superliga desde 2017 e está em sua sexta temporada pelo Osasco. Ela foi afetada pela decisão da CBV, anunciada em agosto, de adotar a política do Comitê Olímpico Internacional (COI) para a elegibilidade de atletas na categoria feminina. Pela nova regra, as jogadoras deverão apresentar teste genético com resultado negativo para o gene SRY, associado ao desenvolvimento masculino. A atleta que não comprovar a elegibilidade ficará impedida de disputar as competições
Veja o último ponto e a comemoração do título paulista do Osasco
Primeira atleta transgênero a atuar na elite do vôlei brasileiro, Tifanny teve sua continuidade no esporte afetada pela mudança. Desde o anúncio, ela recebeu apoio de diversas jogadoras e integrantes da comunidade do vôlei. Gabi Guimarães, capitã da seleção brasileira feminina, chegou a fazer um discurso antes do Pré-Olímpico criticando a decisão da CBV e defendendo a permanência de Tiffany na Superliga.
— É saber que eu poderia estar aqui sorrindo e representando meu esporte e não lutando por ser quem eu sou. É muito difícil porque são sonhos. Eu vou lutar até o final para que a história de Tifanny Abreu não termine desse jeito, que a história de pessoas trans não termine desse jeito e que eu continue inspirando pessoas. Quando eu terminar de jogar e estiver ocupando outros espaços, atletas no futuro falem que se inspiraram em Tifanny, que foi atleta e se aposentou com dignidade e não expulsa das quadras — falou Tifanny.
Campeã paulista, Tifanny evita falar em despedida do vôlei: "Ainda vou lutar"
Na última terça-feira, Tifanny liderou o Osasco na conquista do 19º título do Campeonato Paulista feminino de vôlei diante do Sesi-Bauru. Foi um misto de sentimentos para a jogadora, que evitou falar em despedida. Ela prometeu lutar para jogar a Superliga pela última vez, mesmo depois de a Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) ter mudado a política de elegibilidade para as competições nacionais femininas, impedindo a participação de mulheres transgênero.
- É uma felicidade muito grande poder fazer parte desse grande clube, o Osasco. Pode ser meu último jogo, né!? Meu primeiro jogo foi em Bauru, e o que pode ser o último também foi em Bauru. Se eu terminar agora, vou terminar muito feliz. Mas eu ainda vou lutar, porque eu quero jogar a Superliga este ano antes de me aposentar - disse a jogadora ao sportv.
Na tarde de quarta (14), Tifanny voltou a falar sobre o assunto em uma publicação nas suas redes sociais. Ele retificou que não vai desistir de lutar para seguir jogando.
- O esporte sempre foi a minha vida. E acredito profundamente que ele deve ser um espaço de respeito, inclusão, oportunidades e igualdade para todas as pessoas. Essa conquista também representa a força de quem segue lutando para existir, pertencer e ser respeitada. Não vou desistir! Não vou abrir mão da minha história e muito menos do meu direito de continuar exercendo a profissão que escolhi e à qual dediquei tantos anos da minha vida - escreveu a oposta.
Tifanny Abreu é a primeira atleta transgênero na elite do vôlei brasileiro — Foto: Reprodução/Redes Sociais


