Associação Dialogay é uma organização não governamental (ONG) brasileira fundada em 1981 pelos ativistas Wellington Gomes Andrade e Luiz Mott e atualmente é presidida por Paulo Lira. É reconhecida como a primeira organização voltada à defesa dos direitos da população LGBTQIAPN+ do estado de Sergipe, e também como o segundo grupo gay fundado no Brasil, tendo atuado por mais de duas décadas até 2003. Em janeiro de 2025, a entidade foi relançada com o objetivo de retomar suas atividades em defesa e promoção de direitos da comunidade LGBTQIAPN+ em Sergipe. Sua sede atual, localizada em Aracaju, recebeu o nome de Casa Arco-Íris e foi inaugurada em 1o de dezembro de 2025.

Contexto histórico O surgimento do movimento homossexual em Sergipe antecede a fundação formal do Dialogay. Na segunda metade da década de 1970, um grupo de acolhimento vinculado à comunidade católica — realizado na residência de um padre chamado Inaldo, sem o conhecimento oficial da Igreja Católica enquanto instituição — reunia, aos sábados, gays e transexuais em busca de apoio e proteção social. Embora não possuísse as características de um movimento homossexual formalmente organizado, essa experiência é reconhecida pela historiografia como uma janela de oportunidade para a mobilização política da comunidade no estado. Foi no interior dessa rede de relações que Wellington Andrade construiu os laços que sustentariam a fundação do Dialogay. Em 1980, como distribuidor do jornal O Lampião da Esquina em Sergipe — periódico de referência nacional para o movimento homossexual brasileiro —, Andrade promoveu o lançamento do tabloide no Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal de Sergipe (DCE-UFS), com a presença da travesti e artista Suzana Vermont. O evento representou um dos primeiros atos públicos de articulação do movimento no estado.

Fundação O Grupo Dialogay de Sergipe (GDS) foi então fundado em 1981 pelo ativista Wellington Gomes Andrade e o cofundador Luiz Mott, antropólogo, historiador e um dos principais ativistas LGBTQIAPN+ do Brasil, também criador do Grupo Gay da Bahia. A organização nasceu das inquietações pessoais de Wellington, que havia crescido em uma família evangélica e vivenciado a repressão de sua própria sexualidade no ambiente doméstico. Foi ao deparar-se com o International Journal — uma publicação voltada ao público gay disponível na Banca de Revista Coelho, localizada na entrada do Calçadão da Rua João Pessoa, em frente ao antigo Cine Palace, próximo ao Palácio do Governo de Sergipe — que Wellington começou a tomar conhecimento da existência de organizações dedicadas à defesa da causa homossexual, despertando nele o desejo de criar um espaço semelhante em Aracaju. A concretização desse sonho passou por uma reunião decisiva entre Wellington e Luiz Mott, realizada no quarto do fundador, em uma vila no bairro Vila Senhor do Bomfim, próximo ao Quartel da Polícia Militar de Sergipe, na Rua Boquim, no 193. Naquela noite, os dois conversaram sobre a viabilidade de se fundar um grupo gay em terras sergipanas, lançando as bases do que viria a ser o Dialogay. O vínculo entre as duas instituições ficou registrado já na primeira edição do Boletim do Grupo Gay da Bahia (GGB), publicada em agosto de 1981, que noticiou as caravanas de ativismo realizadas em Aracaju com o objetivo de estimular a fundação do novo grupo — uma conexão que se revelaria duradoura, como demonstraria, anos mais tarde, a carta enviada pelo GGB em apoio ao Dialogay quando este enfrentou o risco de extinção, em 2003.

A criação do GDS emergiu em um contexto nacional mais amplo, marcado pela fundação do Grupo Somos e pelo lançamento do Jornal Lampião da Esquina, ambos oriundos da região Sudeste, mas que integrava uma dinâmica plural de organizações que emergiam simultaneamente em diversas regiões do país. O Dialogay representou, assim, a expressão nordestina e periférica desse movimento em expansão, afirmando que a luta pelos direitos homossexuais no Brasil não se restringia ao eixo Rio-São Paulo.O Dialogay tem uma história muito bonita, somos o 2o grupo gay criado no Brasil, são 40 anos de luta. O nosso nome, inclusive, foi elogiado pelo cantor Renato Russo, porque remete ao diálogo para fazer vencer o preconceito e alcançar o entendimento de que todas as pessoas, independentemente de sua orientação sexual, têm direito a serem respeitadas e viverem sem violência. — Wellington Gomes Andrade, fundador e vice-presidente atual da Dialogay.

Atuação Durante mais de vinte anos, o Dialogay liderou ações voltadas à visibilidade e à garantia de direitos civis da população LGBTQIAPN+ em Sergipe. Sua trajetória foi marcada por frentes simultâneas de atuação, como o combate à violência contra pessoas LGBTs e as primeiras iniciativas do estado de promoção, conscientização e prevenção frente à epidemia de HIV/Aids. Nesse último campo, a atuação do grupo teve desdobramentos concretos na formulação de políticas públicas. Em 1987, ano em que foi registrado o primeiro caso de Aids em Sergipe, o Dialogay articulou-se junto ao poder público estadual e obteve a criação do Programa Estadual de DST/Aids — uma conquista que evidencia o papel do movimento não apenas como instância de denúncia, mas como interlocutor ativo na construção de respostas institucionais à crise sanitária.

A trajetória da entidade foi marcada por resistência em um contexto social e institucional hostil:Enfrentamos toda a sociedade, a igreja, a família. Nosso trabalho do Dialogay foi muito árduo. (...) Na época em que militávamos nem tinham essas nomenclaturas todas, não tínhamos internet, tudo era manualmente, as correrias, as pancadas, hoje tá bem melhor pra tudo, menos para violência. A violência infelizmente continua.

— Wellington Gomes Andrade.Na década de 90, o GDS havia conquistado notoriedade suficiente para sediar um evento de alcance nacional: o IV Encontro Brasileiro de Homossexuais (EBHO), realizado em Aracaju entre 11 e 14 de janeiro de 1990. A capacidade de atrair um encontro dessa magnitude demonstrava a força institucional do grupo, especialmente considerando as dificuldades financeiras que marcavam sua rotina e os novos desafios impostos pela epidemia de Aids, que passava a ocupar cada vez mais a agenda do movimento homossexual brasileiro. Um outro marco importante desse período foi o reconhecimento formal do grupo pelo poder público. Em 6 de setembro de 1990, Wellington Andrade obteve o registro oficial da instituição no Cartório do 10o Ofício de Aracaju, fato que abriu caminho para o acesso a recursos públicos. Pouco tempo depois, vieram os títulos de utilidade pública: pela Assembleia Legislativa do Estado, por meio da Lei Estadual no 3.365, de 25 de agosto de 1993, e pela Câmara Municipal de Aracaju, por meio da Lei Municipal no 2.076, de 20 de dezembro de 1993, que reconheceu oficialmente o Grupo Dialogay de Sergipe como entidade de utilidade pública municipal. Esses reconhecimentos representaram não apenas uma legitimação simbólica da luta do grupo perante o Estado, mas também uma conquista prática fundamental, pois habilitavam a instituição a firmar convênios e captar financiamentos governamentais para ampliar suas ações de defesa dos direitos homossexuais e de prevenção à Aids em Sergipe. O Grupo Dialogay de Sergipe encerrou suas atividades em 2003 e o seu acervo documental, composto por registros históricos de suas ações, documentos organizativos e materiais de comunicação foi herdado pela Associação dos Direitos Humanos e Cidadania LGBTQIA+ (Astra), fundada em 2001 e igualmente dedicada à defesa dos direitos da comunidade.

Relançamento (2025) Em 29 de janeiro de 2025, no Dia da Visibilidade Trans, o Dialogay foi oficialmente relançado em cerimônia realizada na sede da Central Única dos Trabalhadores (CUT), em Sergipe. A iniciativa partiu de Wellington Andrade, agora na vice-presidência da entidade, e do atual presidente da instituição, Paulo Lira, que também ocupa o cargo de presidente da CUT-SE. O relançamento tem como objetivo retomar atividades de defesa de direitos, com ênfase nos direitos da população LGBTQIAPN+ idosa. Entre as ações estão palestras, debates, exposições e atividades de mobilização pública contra o preconceito e a discriminação de gênero.

A associação Dialogay volta nesta perspectiva política da década de 80 de lutar por direitos e políticas públicas efetivas. São muitos desafios, o fascismo e o nazifascismo estão presentes na nossa sociedade. É muito difícil sobreviver neste contexto de violência da extrema direita e exclusão. Então ninguém solta a mão de ninguém e vamos lutar pela nossa vida com liberdade, amor e vencendo todo e qualquer preconceito. — Paulo Lira, presidente da Associação Dialogay.

Casa Arco-Íris No mês seguinte, no dia 1o de dezembro, Dia Mundial de Combate à AIDS, foi inaugurada a nova sede da organização, localizada em Aracaju. Nesta celebração houve homenagens a diversas pessoas importantes do movimento LGBT no estado e no Brasil, como a deputada estadual Linda Brasil e a presença de um dos cofundadores Luiz Mott, que destacou em seu discurso os direitos civis que foram conquistados nos últimos 45 anos desde que fundou o Grupo Gay na Bahia, como o casamento igualitário e as operações genitais para mulheres transsexuais e lamentou que apesar das conquistas o Brasil segue campeão mundial em assassinatos de pessoas da comunidade, vítimas de intolerância e do preconceito.

Ver também O Lampião da Esquina Grupo Gay da Bahia Movimento LGBTQIAPN+ no Brasil

Referências