Matheus Leitão

Flávio misturou dados falsos, recordes reais e omitiu dados sobre o governo do pai no JN. Como será no debate da Band com Lula neste domingo

Matheus Leitão
18/10/2026 15:11
Flávio Bolsonaro com o relógio de seu pai, Jair Bolsonaro, durante sabatina do Jornal Nacional
A pergunta era simples. Na sabatina do Jornal Nacional, na sexta-feira, 16 de outubro, a entrevistadora quis saber se Flávio Bolsonaro respeitaria o resultado das urnas em caso de derrota. Ele disse que sim. E, sem tomar fôlego, despejou uma lista de recordes que o governo Lula teria batido, em violência contra mulheres, criminalidade, queimadas, endividamento, empresas fechadas e indústrias fugindo para o Paraguai. Quando foi lembrado de que a pergunta era outra, não se constrangeu. “Respondi e aproveitei para falar mais umas coisas.”
Neste domingo, 18 de outubro, às 20h, Flávio e Lula se enfrentam no debate da Band. Tudo indica que a lista vai voltar, e vale conferir cada número antes. A maior parte deles não se sustenta, e vários dos problemas que ele atribui a Lula estavam lá, iguais ou piores, no governo do pai.
“Recordista em mulheres espancadas”. O recorde não existe, e quem cortou a verba foi Jair
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública não registra esse recorde. As agressões em violência doméstica subiram 2,6% em 2025, alta que preocupa, mas que o próprio Anuário não classifica como recorde. Se o assunto é abandono, a conta pesa do outro lado. No governo de Jair Bolsonaro, a verba federal de combate à violência contra a mulher caiu de 132,5 milhões de reais em 2020 para 43,2 milhões em 2022, um corte de 68%, segundo o Inesc. Em 2021, as Casas da Mulher Brasileira receberam 1 milhão de reais dos 21,8 milhões autorizados. A ministra responsável era Damares Alves, hoje aliada de Flávio.
Na mesma entrevista, ele defendeu facilitar o acesso a armas, que especialistas apontam como fator de risco dentro de casa para mulheres ameaçadas. Também não rejeitou a proposta de acabar com a marcação das munições, que ajuda a polícia a rastrear de onde saiu a bala usada num crime. Perguntado duas vezes, chamou o tema de “coisa muito menor”.
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“Recordista em criminalidade”. As mortes violentas estão no menor nível desde 2012
O Brasil teve 40.775 mortes violentas em 2025, 8,2% a menos que no ano anterior e o menor número desde 2012, quando a série começou. Como a série inclui os quatro anos de Jair Bolsonaro, o resultado de 2025 fica abaixo de todos eles. Homicídios caíram 10% e latrocínios, 17%. A queda vem desde 2018 e depende muito dos estados, que comandam as polícias. Mas o recorde de crime que Flávio anunciou não existe. O que cresce de verdade é o golpe. Foram 2,26 milhões de estelionatos em 2025, 258 por hora. Desse problema ele não falou.
“O outubro com maior queimada da história”. O mês estava na metade, e o fogo é menor que no tempo de Jair
O fogo cresceu no estado do Amazonas, é verdade. Mas até 23 de setembro o estado somava 5.771 focos em 2026. Em todo o ano de 2022, último de Jair no governo, foram 21.217. Em 2019, ano do “Dia do Fogo”, a Amazônia passou de 89 mil focos. Levantamento do g1 mostra queda de 74% nos focos em Terras Indígenas e reservas do Amazonas neste ano. As ocorrências recentes se concentram em áreas do governo estadual. No mesmo dia da sabatina, o governo federal divulgou o menor desmatamento já medido na Amazônia, 3.335 quilômetros quadrados. Em 2021, com Bolsonaro, foram 13.235, o pior resultado em 15 anos. A destruição em 2026 é cerca de um quarto daquela.
“Recordista em pessoas endividadas”. O número confere, mas o recorde começou com Jair
É verdade que 81,6% das famílias estavam endividadas em maio de 2026, recorde da pesquisa da CNC. Mas em setembro de 2022, com o pai no poder, já eram 79,3%, também recorde na época, e 30% estavam com contas atrasadas. Quatro anos depois, a inadimplência segue praticamente igual.
Os juros explicam boa parte do aperto. Foi sob Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central indicado por Jair, que a Selic saiu de 2% para 13,75% entre 2021 e 2022. Ela voltou a subir depois, já com Gabriel Galípolo, indicado por Lula. Flávio falou do salário que “dura só até o dia 20”, mas não apresentou nenhuma ideia para baixar os juros.
“Recordista em empresas fechadas”. As falências caíram 19%
Segundo a Serasa Experian, os pedidos de falência caíram 19% em 2025. Entre maio e agosto daquele ano, o país abriu 1,67 milhão de novas empresas, alta de 14,1%, e o saldo foi positivo em todos os estados. O que bate recorde são as empresas sufocadas por dívidas, com 9,1 milhões em atraso, e os pedidos de recuperação judicial, que servem justamente para evitar o fechamento. A causa, segundo a Serasa, é o crédito caro.
“Recordista em indústrias que vão para o Paraguai”. Elas já iam com Jair
Das 232 empresas brasileiras que se instalaram no Paraguai desde 2007, ao menos 26 foram em 2021 e 2022, com Jair na Presidência. Outras 40 vieram a partir de 2023, num ritmo parecido. O movimento começou com a Lei de Maquila, de 1997, e nenhuma estatística mostra recorde.
Também falta o outro lado da conta. Imposto baixo vem com Estado pequeno. No Paraguai, só 27,8% dos trabalhadores contribuem para a aposentadoria e 59,4% estão na informalidade. O país investe 3,41% do PIB em educação e não tem nada parecido com o SUS, que atende qualquer brasileiro de graça, da vacina ao transplante. Quem promete imposto paraguaio raramente diz de qual hospital, de qual escola e de qual aposentadoria o eleitor teria de abrir mão.
No debate, a régua é a mesma
Na sabatina, quase ninguém conferiu os números na hora. No debate da Band, neste domingo, vale fazer o contrário. Quando um recorde for anunciado, a pergunta é de onde vem o dado, de que ano é e quem estava no governo quando o problema começou.


