Maldito da MPB é um termo usado para se referir a diversos cantores e compositores que não se encaixavam em nichos de mercado ou gêneros musicais específicos e, apesar de reconhecidos e respeitados por músicos da corrente dominante, encontravam dificuldades para se manterem nas rádios e paradas de sucesso.

Uso e abrangência O termo é uma referência ao vocábulo poeta maldito, utilizado para descrever escritores que não obtiveram sucesso comercial e, de certa forma, fizeram de sua decadência um estilo de vida e uma fonte de inspiração poética. No Brasil, o termo já havia sido direcionado a Sousândrade e Gregório de Matos. O termo foi adaptado por críticos musicais brasileiros nos anos 1970 para englobar artistas excêntricos, turbulentos ou transgressores, cujas obras encontrassem dificuldade para comercialização. Muitos destes autores foram ignorados pelo grande público e pela grande mídia. Diferente de movimentos artísticos nacionais anteriores como o Clube da Esquina e o Pessoal do Ceará, os malditos não estavam localizados em regiões específicas. O termo foi direcionado a artistas de diversos estados brasileiros, como os baianos Tom Zé e Waly Salomão, o piauiense Torquato Neto, o capixaba Sérgio Sampaio, os cariocas Luiz Melodia e Jards Macalé, os paulistas Walter Franco e Itamar Assumpção, os pernambucanos do Ave Sangria e o cearense Ednardo. Sérgio Sampaio destacou-se nacionalmente com seu primeiro single solo, Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua, mas não conseguiu repetir o feito. Semelhantemente, Ednardo alcançou sucesso após a inclusão de sua canção Pavão Mysteriozo na trilha sonora da novela Saramandaia, mas não conseguiu se manter em voga no cenário musical nacional. Walter Franco era considerado um nome de peso por músicos brasileiros contemporâneos, mas nunca emplacou nenhum sucesso comercial. Frente às dificuldades financeiras, Franco se dedicou à produção de jingles. Tom Zé planejava abandonar a carreira musical e trabalhar em um posto de gasolina em Irará, sua cidade natal, até finalmente fazer sucesso comercial em 1986, após ter sua carreira alavancada na Europa e nos Estados Unidos por David Byrne. Jorge Mautner, além da música, atuou no filme Festa e se dedicou a escrever livros, dar palestras, e à militância no Partido Comunista do Brasil. Os raros hits compostos pelos malditos comumente ocorrem quando lançados por outros artistas: Vapor Barato, de Jards Macalé e Waly Salomão, fez sucesso performada por Gal Costa e O Rappa. Já Maracatu Atômico, de Mautner e Nelson Jacobina, tem sua versão mais famosa na voz de Chico Science. Os malditos não se relacionavam em gênero musical, mas contavam com parcerias entre si e com nomes importantes da música nacional. Jorge Mautner teve diversas parcerias com Gilberto Gil e Caetano Veloso. A banda Ave Sangria, formada por membros que acompanhavam Alceu Valença em turnê, gravou seu primeiro álbum de estúdio em 1974 e o segundo apenas 44 anos depois. Em 1982, Sérgio Sampaio gravou para seu terceiro álbum, Sinceramente, a faixa Doce Melodia, homenagem a Luiz Melodia que contou com a participação do cantor carioca. Melodia retribuiu a homenagem gravando a faixa Cruel, composta por Sampaio, em 1997 e em 2002, para seus álbuns 14 Quilates e Ao Vivo Convida.

Recepção do termo Considerando o seu caráter depreciativo, o termo frequentemente era encarado com resistência pelos artistas. A faixa Anjo Exterminado, composta por Jards Macalé e Waly Salomão e lançada originalmente por Maria Bethânia em 1972 utiliza o termo poeta benquisto, ironizando o rótulo imposto a ambos autores. Em 2015, Luiz Melodia disse que não se incomodava com o rótulo e que era feliz por não se prender a um único estilo, preferindo se considerar um artista inquieto

Legado Em 2006, Zeca Baleiro produziu e lançou o álbum Cruel, gravado por Sérgio Sampaio pouco antes de sua morte em 1994. Já em 2011, o álbum independente Sinceramente foi relançado pelo selo Saravá. Ambos os lançamentos foram resultado de um esforço de Zeca Baleiro em disponibilizar a obra de Sampaio para o público. O primeiro museu virtual para um artista negro brasileiro é dedicado à vida e obra de Itamar Assumpção. Em 2012, um show dedicado ao legado dos malditos ocorreu em Caxias do Sul, contando com diversos músicos locais performando canções de Jards Macalé, Assumpção e Sampaio. Em 2025, músicos como Caetano Veloso e Maria Bethânia exaltaram Macalé no contexto de sua morte.

Artistas considerados malditos Entre os músicos rotulados como malditos estão:

Referências